ZEUS, BARBA AZUL E O HOMEM DE HOJE
- UP LiPSCOM
- 3 de mai.
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Atualizado: há 4 dias
Por Carlo Felipe Sagrillo Zellauy e Tatiani Kali Zanini
De Zeus a Barba Azul, os mitos e contos que atravessaram séculos não são apenas histórias; são dispositivos culturais que ensinaram e ainda ensinam como o poder masculino deve funcionar. O ponto de partida é Zeus: soberano do universo, mas também figura marcada pela coerção, pelo disfarce e pelo controle. Suas múltiplas relações, descritas na mitologia grega, raramente envolvem consentimento e é exatamente aí que reside o símbolo. O mito não apenas reflete uma cultura; ele a constrói. Raewyn Connell define a masculinidade hegemônica como o modelo cultural dominante que organiza as hierarquias de gênero, legitimando a posição de poder dos homens. Zeus é um de seus arquétipos mais antigos. Séculos depois, Barba Azul repete a estrutura: o homem que controla o espaço, o corpo e os segredos da mulher, recorrendo ao medo como instrumento de submissão. Pierre Bourdieu chama esse mecanismo de dominação simbólica, a capacidade invisível de impor valores e classificações como naturais, fazendo com que relações de hierarquia sejam aceitas sem força física.
Michel Foucault completa o quadro: o poder não opera apenas pela repressão, mas produz subjetividades, modos de ser e de pensar que os próprios sujeitos internalizam. Os efeitos são concretos e abrangentes. Mulheres submetidas ao controle e à violência. Crianças, jovens e pessoas LGBTQIA+ alvos de exclusão e estigma. E também homens, presos às exigências de um modelo que os obriga ao silêncio emocional, ao desempenho constante e à negação da vulnerabilidade, o que se manifesta em quadros de ansiedade, depressão e, nos casos mais extremos, suicídio. Clarissa Pinkola Estés, em Mulheres que correm com os lobos, traz uma chave para entender esse processo: assim como os ecossistemas naturais foram degradados, a dimensão instintiva feminina foi historicamente suprimida por forças culturais que impõem padrões artificiais. Quando os vínculos de uma mulher com sua própria essência são cortados, afirma a autora, seus instintos e ciclos naturais se perdem em favor de uma subordinação à cultura e ao ego dela própria ou de outros.
Os mitos e contos, contudo, não são apenas instrumentos de dominação. Revisitados criticamente, eles podem ser ressignificados. É nesse movimento de análise, contestação e reconstrução do simbólico que o trabalho encontra sua aposta: a transformação das relações de gênero passa também pelo campo das narrativas, dos afetos e das crenças que nos constituem.

(CONNELL; MESSERSCHMIDT, 2013; BOURDIEU, 2002; FOUCAULT, 1988; ESTÉS, 2018; SOUZA, 2019; SANTOS, 2025; BRASIL, 2025)



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