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Por que fomos ensinados que, depois dos 40, mudar de carreira significa começar do zero?

  • Foto do escritor: UP LiPSCOM
    UP LiPSCOM
  • 13 de ago.
  • 3 min de leitura

Por Marilene C Denofrio

Se tem uma coisa que me despertou grande inquietação foi perceber como, depois dos 40, somos levados a enxergar uma transição de carreira como se ela significasse começar do zero. Ela chega carregando anos de experiência, vínculos, responsabilidades, conhecimentos, frustrações, conquistas e uma identidade profissional anterior.

Uma transição de carreira na meia-idade não é apenas uma mudança profissional, é também uma negociação entre identidade, segurança, desejos, expectativas sociais e a história que a pessoa construiu até ali.

Anderson et al. (2021), ao investigarem a transição de carreira de profissionais de meia-idade, trabalham o tema a partir de três dimensões: identidade profissional, fatores que impulsionam a mudança e recursos mobilizados durante o processo. Se eu mudo de profissão, o que acontece com a pessoa profissional que eu fui até aqui?

A sociedade cria expectativas sobre o que deveria estar acontecendo em cada etapa da vida, mas... e quem ousa alterar esse suposto ritmo?

A vida aos 40 deveria estar resolvida, plena, fluida e constante? Que engano!

As situações que atravessamos alteram o nosso trajeto, a nossa mente e os nossos quereres. O que pensávamos aos 20 anos, as expectativas daquela fase, ficaram para trás, não necessariamente porque estavam erradas, mas porque nós também mudamos.


Talvez essa seja uma das coisas mais difíceis de admitir sobre a vida adulta: aquilo que fazia sentido para nós em determinado momento pode deixar de fazer sentido alguns anos depois.

E isso não significa fracasso, significa que somos afetados pelo tempo e pelas experiências e que nossas escolhas também podem mudar à medida que mudamos.

Mas, quando essa mudança acontece profissionalmente, parece que existe uma espécie de autorização social que deixa de valer.

Imagem gerada por IA
Imagem gerada por IA

Aos 20, experimentar parece esperado. Aos 30, mudar pode ser compreensível.

Mas depois dos 40? Surge a pergunta: "Agora?"

Porque uma pessoa que decide mudar de carreira aos 40, 45 ou 50 anos não retorna ao ponto de partida, ela parte de outro lugar.

Um lugar que carrega tudo aquilo que viveu, aprendeu, perdeu, conquistou, descobriu e, principalmente, tudo aquilo que passou a saber sobre si mesma.

Mas existe um "mas".

Porque mudar não acontece em um vazio.

Existe a conta para pagar, a família, os compromissos assumidos, o medo de perder aquilo que levou anos para conquistar. Existe também o olhar dos outros e, talvez ainda mais difícil, o nosso próprio olhar sobre nós mesmos.

"Será que ainda dá tempo?"

"E se eu estiver jogando fora tudo o que construí?"

"E se eu não conseguir?"

É justamente nessa tensão que a transição de carreira na meia-idade parece ganhar uma complexidade particular.

Nos relatos que analisaram, os autores encontraram uma ambivalência importante: de um lado, o desejo de realização pessoal e satisfação com uma nova trajetória; de outro, a angústia relacionada à segurança financeira e à possibilidade de abrir mão da estabilidade construída na carreira anterior. (ANDERSON et al. 2021)

Ou seja: querer mudar e ter medo de mudar podem existir ao mesmo tempo.

E talvez aí esteja uma das partes menos romantizadas de uma transição de carreira, pois não se trata simplesmente de "seguir o coração", abandonar tudo e começar uma nova vida na segunda-feira.

Para algumas pessoas, a mudança pode significar planejamento, espera, formação, reorganização financeira, negociação familiar e, principalmente, tempo.

Afinal, se aos 20 anos somos frequentemente incentivados a experimentar, por que aos 40 precisamos justificar tanto o desejo de mudar?

Talvez porque, nessa fase, não estejamos apenas escolhendo uma nova profissão. Estamos também negociando com a pessoa que fomos, com aquilo que construímos e com tudo aquilo que acreditamos que deveríamos ter conseguido manter.

E, se existe uma possibilidade que faz sentido, se há espaço para construí-la e se as condições permitem que ela seja experimentada, talvez não seja necessário esperar mais uma década para descobrir onde ela poderia nos levar.

Não é fácil. Mas seguimos.


Referência: ANDERSON, Mafalda Maria de Medeiros; VELOSO, Elza Fátima Rosa; TREVISAN, Leonardo Nelmi; STEFANI, Silvio Roberto. Career transition of middle-aged professionals. Revista de Administração da UFSM, Santa Maria, v. 14, n. 1, p. 63-78, 2021. DOI: https://doi.org/10.5902/1983465963592.

 
 
 

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