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Cuidar em liberdade: luta antimanicomial, redução de danos e os novos manicômios

  • Foto do escritor: UP LiPSCOM
    UP LiPSCOM
  • 20 de mai.
  • 3 min de leitura

Por Lucas Ariel de Almeida Lima


A segunda noite do Evento da Luta Antimanicomial 2026, organizada pela Prof. Dra Karin Di Monteiro, realizada na UniPaulistana, ampliou o debate sobre saúde mental ao trazer para o centro da conversa temas como redução de danos, população em situação de rua, comunidades terapêuticas, infância e políticas públicas de cuidado. Mais do que revisitar a reforma psiquiátrica como marco histórico, a palestra evidenciou que a luta antimanicomial ainda está em aberto. Como foi destacado no início do encontro, 25 anos representam um período muito recente quando se pensa em transformações sociais profundas e a luta continua atravessada por diferentes formas de vulnerabilidade, exclusão e resistência.


A mesa reuniu Fábio Rodrigues, poeta, articulador periférico e trabalhador da redução de danos; Eduardo Real, pesquisador, ativista e membro do Movimento Nacional de Vítimas de Comunidades Terapêuticas; e Aline Negrigo Urini, fisioterapeuta, mestre pela Unifesp, especialista em gestão em saúde pela Fiocruz e gestora de CAPS Infantojuvenil. Um dos eixos centrais da noite foi a crítica à ideia de que manicômios pertencem ao passado.


Os convidados demonstraram que práticas manicomiais persistem sob novas formas: nas internações forçadas, nas comunidades terapêuticas, na criminalização da pobreza, na patologização da infância, no racismo estrutural e na negação sistemática do direito ao cuidado em liberdade.


Fábio Rodrigues abriu sua fala com um dado que sintetiza o que chamou de “guerra às drogas como política de exclusão”: cerca de 70% das pessoas em situação de rua não possuem certidão de nascimento, o que as impede de acessar qualquer direito formal. Seu trabalho como redutor de danos inclui percorrer periferias para facilitar a emissão desse documento e os números revelam a dimensão do problema: em uma única ação na periferia de São Paulo, foram recolhidos mais de 70 requerimentos, dos quais 40% eram de crianças com até sete anos de idade sem qualquer registro civil. “Isso é guerra”, afirmou. “Isso é política de genocídio.”


Sua fala também percorreu a relação entre a política de drogas, o encarceramento em massa e o desmonte dos serviços comunitários de saúde mental. Ao apresentar dados orçamentários do Estado de São Paulo, apontou que 95% do orçamento destinado à política de drogas foi direcionado a comunidades terapêuticas, enquanto os serviços comunitários de saúde mental ficaram com apenas 5%.


Eduardo Real compartilhou uma trajetória que atravessa 14 internações em comunidades terapêuticas ao longo de anos, a primeira delas com 22 anos, após pedir ajuda à família por um uso problemático de substâncias. O que se seguiu foi uma sequência de sequestros, violências físicas e psicológicas, trabalho forçado e tentativas de “cura” da homossexualidade dentro dessas instituições. Ao retomar os artigos da Lei 10.216, mostrou como cada um deles é sistematicamente desrespeitado na prática: o direito à comunicação monitorado, a preferência pelo cuidado comunitário ignorada, a internação voluntária inexistente na realidade dos serviços. “Trancar não é tratar”, disse, reafirmando uma das bases fundadoras da luta antimanicomial. E foi além: “toda internação é involuntária, inclusive as que se dizem voluntárias.”


Aline Negrigo Urini trouxe ao debate a dimensão da infância e da adolescência. A partir de sua experiência em oito anos no CAPS Infantojuvenil, narrou a trajetória de Thiago — nome fictício —, uma criança que chegou ao serviço aos oito anos após testemunhar o assassinato do pai, foi judicializada na adolescência, passou por abrigos, pela Fundação Casa, pelas cenas de uso e pelo abandono familiar, e segue sendo acompanhada pela equipe até hoje, já adulto, com insuficiência hepática grave. “A gente não desiste dele”, disse. Sua fala foi uma afirmação de que o compromisso ético-político com o cuidado não se encerra nos protocolos.


Ela também nomeou o que chamou de “manicômio contemporâneo na infância”: a hiperpatologização de crianças pequenas, a exigência de laudos para permanência escolar, a medicação como substituta da escuta e o isolamento social crescente entre crianças e adolescentes. A frase com que encerrou sua fala atravessou a sala:


“O manicômio contemporâneo, muitas vezes, não tem muros.”


Essa ideia condensou o que o evento propôs ao longo das duas noites: o manicômio não é apenas uma instituição fechada. Ele habita práticas, protocolos, indiferenças e omissões. E a luta antimanicomial, por isso, não é pauta exclusiva da saúde mental, é uma luta por direitos, por dignidade e por uma sociedade capaz de cuidar sem encarcerar.


As principais mudanças foram incorporar os dados e cenas concretas da transcrição, substituir afirmações genéricas por evidências específicas, e dar mais peso à voz de cada convidado em vez de apenas descrever o que disseram.



 
 
 

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