Crianças e telas: os sinais que os pais precisam conhecer
Por Lucas Ariel de Almeida Lima
Através do convite da Profª Renata Coelho, da UniPaulistana, estive no evento na Escola de Aplicação da USP reuniu famílias, psicólogos e educadores para discutir os desafios do mundo digital na infância. O auditório da Escola de Aplicação da USP recebeu cerca de 70 pais e responsáveis para um encontro sem respostas prontas nem receitas infalíveis. O convite era outro: sentar, escutar e pensar junto. Mas os relatos que surgiram ao longo da tarde deixaram claro que o tema exige urgência, não apenas reflexão.
A abertura ficou com a professora Lela Tardivo, coordenadora do Apoiar IPUSP, psicóloga e docente há mais de 50 anos na USP. Antes de falar em limites de tempo de tela, ela pediu à plateia que lembrasse de amarelinha, bolinha de gude e ligações discadas que podiam demorar dias para serem completadas. "Hoje não dá nem tempo de sentir saudade", disse ela. O tom não era de nostalgia: os adolescentes estão preocupando, e os espaços de conversa e escuta se tornaram necessários.
Com base nas orientações da Sociedade Brasileira de Pediatria e da Organização Mundial da Saúde, a professora Leila elencou os limites recomendados por faixa etária, nenhuma tela antes dos dois anos; no máximo uma hora por dia, com supervisão, para crianças de dois a cinco, e listou os sinais que merecem atenção: irritação intensa ao desligar a tela, isolamento social, queda no desempenho escolar, alterações no sono e perda de interesse por qualquer atividade que não envolva o aparelho. "Antes da bronca, é preciso perguntar: o que está acontecendo aqui?", disse ela.

A explicação passa pela neurociência. O lobo frontal, responsável pelo controle, pela lógica e pela tomada de decisão, só atinge maturidade plena por volta dos 24 ou 25 anos. Enquanto isso, o sistema límbico, ligado às emoções, já opera em plena atividade. "É como um cassino", comparou um dos pais na roda de conversa. "A criança continua rolando em busca da recompensa, e o lobo frontal ainda não está pronto para dizer chega." As plataformas digitais, projetadas para maximizar o tempo de uso, exploram exatamente esse desequilíbrio. Os riscos, porém, não se limitam ao tempo de exposição. A professora Leila citou o cyberbullying, desafios que circulam em aplicativos, conteúdos que ensinam a se machucar e o sexting entre adolescentes.
Na roda de conversa mediada por estagiários de psicologia, os relatos revelaram um cotidiano reconhecível por quase todos. Uma mãe contou que a filha, mesmo sem acesso ao YouTube na TV e sem celular próprio, encontrou um vídeo pelo Spotify. "Por mais que a gente tenha controle parental, sempre tem uma brecha."
Outra relatou que, ao ter o aparelho retirado por recomendação médica, a filha passou a se bater no rosto e a recusar escola, alimentação e qualquer atividade. "Foi quando conheci de verdade quem era a minha filha no auge da frustração. Tudo que estava represado apareceu de uma vez." Um pai que trabalha com desenvolvimento de tecnologia mobile trouxe uma síntese que ecoou na sala: quando está junto e dá direcionamento, a tela pode ser muito boa; quando a criança entra sozinha apenas para passar o tempo, é muito nociva.
Uma mãe que estava acompanhando o encontro colocou em palavras o paradoxo que muitos vivem: "Os pais muitas vezes erram tentando acertar. É uma linha muito tênue entre o limite e o excesso." E completou: "Quando o filho está em casa, a gente acha que está seguro. É justamente aí que mora um dos perigos."
O encontro terminou, mas a pergunta que ficou no ar não tem resposta fácil: o que fazemos agora? A professora Leila havia visitado, na semana anterior ao evento, uma escola onde uma adolescente de 15 anos havia morrido. O Brasil registra os maiores índices de cyberbullying do mundo e concentra na faixa de 15 a 24 anos o maior número de suicídios do país. Esses não são dados distantes. São filhos, alunos e vizinhos. Conhecer o que a criança acessa, criar rotinas com espaço para brincadeira e convívio real e manter o diálogo aberto não são sugestões opcionais. São, segundo os especialistas presentes, o mínimo necessário para que a tela não vire o único lugar onde a criança sente que existe.
A LiPSCOM, Liga Acadêmica de Psicologia Social da Comunicação e Mídia da UniPaulistana, esteve presente no evento como parte de seu trabalho de cobertura jornalística de iniciativas que articulam saúde, educação e comunidade.



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