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Parassocial: por que criamos vínculos com quem nem sabe que existimos?

Foto do escritor: UP LiPSCOM
UP LiPSCOM
18 de set.
5 min de leitura

Por Lucas Ariel de Almeida Lima

Você acompanha uma pessoa há tanto tempo nas redes sociais que sente que a conhece. Sabe como ela fala, conhece parte de sua rotina, reconhece suas opiniões e talvez até perceba quando alguma coisa parece diferente. Quando ela conquista algo, você fica feliz. Quando passa por uma situação difícil, sente preocupação. Existe afeto, identificação e uma sensação de proximidade. Há apenas um detalhe: essa pessoa não sabe quem você é. Esse tipo de vínculo ajuda a entender por que "parassocial" foi escolhida pelo Cambridge Dictionary como a Palavra do Ano de 2025. O termo ganhou destaque em um momento em que as relações com celebridades, influenciadores, criadores de conteúdo e até com sistemas de inteligência artificial passaram a ocupar um espaço cada vez maior no cotidiano.


Apesar da atenção recente, o fenômeno está longe de ser novo. Em 1956, os pesquisadores Donald Horton e R. Richard Wohl publicaram o artigo Mass Communication and Para-social Interaction: Observations on Intimacy at a Distance. Ao observar os meios de comunicação da época, especialmente rádio e televisão, os autores perceberam que eles podiam produzir no público uma sensação de proximidade com as figuras que apareciam na mídia. O espectador poderia sentir como se conhecesse determinado apresentador ou personalidade, mesmo sem existir uma relação recíproca entre os dois. Foi nesse contexto que surgiu o conceito de interação parassocial.


Com o avanço das pesquisas, tornou-se importante diferenciar dois fenômenos próximos. A interação parassocial, conhecida pela sigla PSI, refere-se à experiência de interação percebida durante o contato com uma figura midiática. Já a relação parassocial, ou PSR, diz respeito a um vínculo que pode permanecer e se desenvolver para além daquele momento específico. Podemos sentir que estamos interagindo com alguém enquanto assistimos a um vídeo sem necessariamente desenvolver uma relação psicológica duradoura com aquela pessoa.


Da televisão para o celular

Se o fenômeno já existia na televisão, as redes sociais criaram novas condições para que ele se desenvolvesse. Hoje, uma pessoa pode acordar e assistir aos stories de um influenciador tomando café, acompanhar seu trabalho durante o dia, vê-lo falando sobre problemas pessoais e terminar a noite assistindo a uma transmissão ao vivo. Curtidas, comentários, vídeos e conteúdos sobre a vida cotidiana aumentam a sensação de acesso e proximidade. Essa proximidade subjetiva fica particularmente visível quando acontecimentos importantes da vida de uma celebridade provocam reações emocionais intensas em pessoas que nunca tiveram contato pessoal com ela.

Imagem gerada por IA
Imagem gerada por IA

Um exemplo recente ocorreu com Taylor Swift. Quando a cantora anunciou seu noivado com Travis Kelce, em 2025, a repercussão foi muito além da curiosidade sobre uma celebridade. Fãs publicaram vídeos chorando, comemorando e descrevendo a sensação de acompanhar uma nova etapa da vida de alguém cuja trajetória segue há anos.


Em setembro de 2026, outro episódio tornou essa dinâmica ainda mais evidente. Foi noticiado o nascimento do primeiro filho de Lady Gaga e Michael Polansky. Nesse caso, existe uma particularidade interessante: há anos Gaga chama seus fãs de "Little Monsters" e é conhecida entre eles como "Mother Monster". Com a notícia de que a cantora havia se tornado mãe, essa linguagem ganhou um novo significado: fãs celebraram o acontecimento recorrendo novamente às ideias de mãe, família e "Little Monster". O interessante para a Psicologia está justamente no uso de uma linguagem normalmente associada a relações próximas para expressar afeto por uma pessoa que, na maioria dos casos, nunca conheceu individualmente.


Os exemplos de Taylor Swift e Lady Gaga mostram uma característica importante das relações parassociais: o vínculo pode ser unilateral sem que a emoção experimentada seja falsa. Uma pessoa pode compreender perfeitamente que não é amiga ou parente daquela celebridade e, ainda assim, sentir identificação, carinho, preocupação ou felicidade diante de acontecimentos importantes de sua vida.


Mas isso significa solidão?

Uma interpretação bastante comum é imaginar que alguém desenvolve relações parassociais porque não possui relações sociais satisfatórias na vida real. A literatura científica, porém, apresenta um cenário mais complexo.


Em 2020, Riva Tukachinsky, Nathan Walter e Camille Saucier publicaram no Journal of Communication uma meta-análise reunindo quatro décadas de pesquisas sobre relações parassociais. Ao analisar 120 estudos, os pesquisadores encontraram evidências importantes para diferenciar interação e relação parassocial: embora PSI e PSR estejam relacionadas, a associação entre elas foi apenas moderada, reforçando a ideia de que não representam exatamente o mesmo fenômeno. A relação parassocial também apareceu como um preditor mais forte de envolvimento com a mídia do que a interação parassocial. A pesquisa também ajuda a questionar a ideia de que relações parassociais existiriam simplesmente para compensar a ausência de relações sociais reais. A meta-análise não encontrou uma associação significativa entre deficiências sociais e relações parassociais. Isso significa que sentir proximidade com um artista, influenciador ou outra figura pública não deve ser considerado, por si só, sinal de isolamento ou de um problema psicológico.


Por outro lado, isso também não significa que todo vínculo parassocial seja necessariamente positivo ou inofensivo. Sua intensidade, a função que ocupa na vida da pessoa e a maneira como interfere em outras relações e atividades também precisam ser consideradas. Talvez, então, uma pergunta seja mais interessante do que simplesmente classificar esses vínculos como bons ou ruins: qual função essa relação ocupa na vida daquela pessoa?


E quando quem está do outro lado é uma inteligência artificial?

Se as redes sociais já tornaram mais complexa a fronteira entre proximidade e distância, a inteligência artificial acrescenta uma nova questão. Quando conversamos com um chatbot, existe uma diferença importante em relação ao exemplo clássico da celebridade. Em 2025, um estudo bibliográfico disponibilizado no SciELO Preprints por Anne Chaves discutiu os possíveis impactos psicológicos das interações parassociais com inteligência artificial na saúde mental. O trabalho aponta possibilidades positivas e negativas associadas às interações entre usuários e assistentes de IA, mas também reconhece que ainda são necessárias novas pesquisas para compreender melhor o fenômeno. É importante destacar que se trata de um preprint, um trabalho disponibilizado antes da consolidação do processo tradicional de revisão por pares, por isso suas conclusões precisam ser interpretadas com cautela. Se uma tecnologia conversa conosco, utiliza linguagem emocional e responde de maneira aparentemente empática, como interpretamos essa interação e que tipo de vínculo pode surgir dela?


Referências

HORTON, D.; WOHL, R. R. Mass communication and para-social interaction: observations on intimacy at a distance. Psychiatry, v. 19, n. 3, p. 215-229, 1956.

TUKACHINSKY, R.; WALTER, N.; SAUCIER, C. J. Antecedents and effects of parasocial relationships: a meta-analysis. Journal of Communication, v. 70, n. 6, p. 868-894, 2020.

CHAVES, A. Explorando o impacto psicológico das interações parassociais com inteligência artificial na saúde mental do usuário. SciELO Preprints, 2025. Preprint. DOI: 10.1590/SciELOPreprints.12061.

CAMBRIDGE DICTIONARY. Word of the Year 2025: Parasocial. Cambridge University Press & Assessment, 2025.

 
 
 

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